A Experiência de uma Workaholic: Você se Identifica?

14.07.2017

Eu estava há pouco tempo na empresa e, como qualquer jovem, queria dar o melhor de mim. No fim de todo ano, a equipe fazia uma reunião de encerramento e essa seria a primeira reunião que eu iria participar.

Meu gerente iniciou a reunião: vimos nossos resultados, as metas do próximo ano e, como ele sempre fazia, nos trouxe um momento de reflexão. Eu mal sabia que aquele momento seria decisivo para mim, um divisor de águas, a revelação de um segredo que eu não queria ver. Este momento aconteceu quando ele disse:

“É verdade que meu corpo precisa de horas de descanso que procuro preencher da melhor forma, mas meu maior prazer é ver raiar o dia e poder voltar ao trabalho, que é a minha fonte de felicidade” Elogio ao Ócio (1935) – Bertrand Russel.

O que você pensaria ao ler essa frase?

O meu pensamento foi instintivo: SOU EU! Sou assim!, eufórica (no meu jeito de ser… rsrs), afinal, amo o que faço e estava MEGA alinhada com o que meu chefe desejava. Mas, para minha surpresa, a apresentação dele não terminava aí. A frase seguinte dele foi que pessoas com pensamentos como esses, não seriam o perfil de pessoas com quem ele desejaria trabalhar, pois ele entendia que a vida precisava de EQUILÍBRIO.

São das férias, da diversão, do lazer, desses momentos que vem a inspiração, os insights, a inovação que nos fazem extraordinários em nossos trabalhos. Vem da alegria de viver!

É certo que passamos 12 a 14 horas do nosso dia no trabalho e, muitas vezes, é nele que encontramos o reconhecimento, satisfação, valorização, o senso de propósito, de ser útil e sentir-se vivo, mas como diria Max Gehringer: “As pessoas mais felizes que eu conheço são aquelas que não enxergam o trabalho como a razão de ser de suas vidas mas como uma maneira de conseguir recursos para aproveitar ao máximo a vida fora da empresa”.  

Mas então, como fazer? Como falar de qualidade vida e de lazer, mas também mostrar que a alegria maior seria não enxergando o trabalho como a razão de viver?

Parece estranho quando nos perguntamos sobre isso, parece estar longe dos nossos mundos. Mas posso te dizer que não, isso está mais perto de nós do que imaginamos.

Em 2010 eu fui chamada para dar uma palestra na semana da psicologia, na Veiga de Almeida, para os campus da Barra e da Tijuca, no RJ. E foi ali, diante de todos aqueles alunos, que resolvi expor minha visão sobre alegria, trabalho e qualidade de vida. Eu conhecia minhas limitações, crenças e valores, então sabia que deveria ser coerente com o tema.

Diante deles, como num grupo de AA, eu me apresentei: Meu nome é Ingrid e eu sou Workaholic. Mesmo minha empresa me dando todos os incentivos e programas, não quero “perder tempo” fazendo shiatsu ou qualquer coisa do tipo (nem mesmo almoçando), simplesmente por amar o que faço.

Você pode estar se perguntando se ainda sou workaholic. Bom, todo viciado sabe que o vício não controlado tende a nos dominar. O que fazemos para que esse vício seja controlado? É entender os motivos, os gatilhos, as recompensas que se apresentam e que mascaram que nos fazem parecer felizes, plenos, certos de estarmos no caminho certo. Por isso, reconhecer, abraçar, aceitar ajuda, entender e ressignificar, foram passos fundamentais para que eu pudesse dizer: eu não te escuto mais (pois o vício começa com uma voz), você não me leva nada, já diria uma música.  

Contudo, meu objetivo aqui não é falar sobre esse processo, podemos tratar disso em outro texto. Meu desejo e objetivo é compartilhar o que aprendi sobre viver do que se ama com equilíbrio. Afinal, carreira é importante, mas não pode ser tudo, por mais que amemos nosso trabalho e vivamos dele; mesmo que ele seja sua missão e propósito de vida, o equilíbrio de tempo é fundamental. 

Como viver com equilíbrio e deixar de ser workaholic:

O primeiro ponto são as escolhas que faz com o seu tempo. Nossa vida é feita de outras coisas que não só trabalho. Salomão sabiamente disse: “há tempo para TUDO”, Ecl 3.1.

Hoje, Jack Welch diz: “(…) sem dúvida, o equilíbrio trabalho-vida como conceito torna-se cada vez mais importante e abrangente. A questão é como todos nós gerenciamos nossa vida e distribuímos nosso tempo – é sobre prioridades e valores. O equilíbrio trabalho-vida significa fazer escolhas e renúncias, aceitando as consequências. É tão simples – e tão complexo. Mas, lembre-se, você não está sozinho. Sua empresa, você e sua família, também sentem o impacto das suas escolhas e atitudes”.

Minha vida profissional me sugou, mas muito me ensinou. Fui ficando atenta aos sinais, as mensagens, então pude repensar para tentar mudar. Então, em uma reunião, meu diretor leu para nós um texto que ecoou forte em mim por anos, mas que demorei a entender totalmente a importância disso.

Ele começou a ler um discurso de cerimônia de formatura, escrito por Brian Dyson, diretor executivo da Coca-Cola, o qual falava sobre a relação do trabalho com outros compromissos:

“Imagine a vida como um jogo no qual você está fazendo malabarismo com cinco bolas atiradas ao ar. Essas bolas têm o nome de ‘trabalho’, ‘família’, ‘saúde’, ‘amigos’ e ‘espírito’ — e você tem que mantê-las todas girando no ar. Logo você vai descobrir que o trabalho é uma bola de borracha. Se você a deixa cair, ela pula de volta. Mas as outras quatro bolas — ‘família’, ‘saúde’, ‘amigos’ e ‘espírito’ — são feitas de vidro. Se você deixar cair uma delas, elas ficarão irrevogavelmente arranhadas, marcadas, avariadas ou mesmo quebradas. Nunca mais serão as mesmas. É preciso compreender isso e empenhar-se pelo equilíbrio da vida”.

Então, não deixe seu trabalho ser tudo para você, pois se ele for seu propósito de vida, você se desmonta numa demissão.

O mais importante passo é admitir o problema: Você é workaholic

O segundo e último ponto é: você não está sozinho, mas é preciso coragem para pedir ajuda. Na época em que comecei a trabalhar esse ponto da minha vida (eu não sabia, mas estava trabalhando o que no coaching alguns chamam de Roda da Abundância ou da Realização), eu precisei encarar e vencer a minha maior dificuldade, que era dar o primeiro e tão difícil passo: declarar que eu era workaholic. Declarar para mim quem eu era e o que estava fazendo com minha vida. A declaração não veio barato, me custou pressão alta, 15kg a mais e, mesmo assim, não foi fácil admitir. Mas foi libertador!

Quando eu finalmente fiz isso, descobri algo extraordinário: eu não estava sozinha, haviam vários ao meu redor que tinham o mesmo problema, que são do tipo workaholic, e eu não sabia, ou que só assumiram quando eu assumi. Foi tão reconfortante ver e perceber que eu não era tão peixe fora d’água, mas que era possível dar as mãos e ter pessoas com quem caminhar.

Mas a Roda (a ferramenta de coaching) não para aí, o segundo passo dela foi tão importante quanto o primeiro: além de admitir o meu problema, eu precisei solicitar ajuda; reconhecer que sozinha seria quase impossível deixar de ser uma workaholic. A ajuda de profissionais foi fundamental (e no meu caso foram um terapeuta, um nutricionista, e por um período de tempo um psiquiatra – que não tenho vergonha de contar ou assumir – como também de um coach).

Lembre-se de se cuidar!

Eu não tinha comigo as ferramentas e o conhecimento. Eu que amava ajudar as pessoas, precisei aprender a ser cuidada, a me cuidar: a ser ajudada. Aprendi a dar valor em receber, a mostrar aos outros que sou gente e que preciso e mereço ser cuidada e amada. Aprendi que não há nenhum problema em demonstrarmos nossas fraquezas, dores e problemas, em contrariar a regra e responder: não, não está tudo bem! Quando te empoem essa pergunta (afirmação retórica): tudo bem?

Viver esse momento me fez crescer, ser mais humana, mais madura (claro que ainda há muito a amadurecer), e me fez aprender a dar espaço as pessoas e a entender que não preciso e nem é meu dever fazer tudo o tempo todo.

Devemos aprendemos a dar espaço nas nossas relações para que os outros possam conhecer nossos talentos, nos estender a mão e nos surpreender. Deixemos aqueles à nossa volta perceberem que juntos somos muito mais do que éramos sozinhos.

Hoje, continuo amando o que faço.

Hoje, continuo me dando pelo que amo.

Mas hoje, acima de tudo, entendi qual das bolinhas não pode cair: eu mesma.

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